sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

O temporal que cai...

Aqui estou: nua, na chuva, entre medos. Medo... isso que me acompanha e acolhe! Como que fossem braços seus... Mas saudade eu não tenho. Tenho só medo, medo doido esse de estar sem você! Mas, estava dizendo: estou nua na chuva... livre. E sem você, que saudade de você! E então, de que adianta ser livre? Minha liberdade é, então, só fachada, é hipocrisia de ser livre. Por que? Porque - simples assim - me vejo presa na chuva como fosse donzela indefesa esperando você. E por que essa chuva não pára? Nunca... nunca pára, sempre está onde estou: nua, na chuva, entre medos... como fosse donzela indefesa. Mas isso já disse. E nem Deus escutou. E nem a chuva parou. Ela cai e cai e cai em cima de mim... dentro de mim também chove. E tenho frio e medo, tanto medo do eu sem seu amor. Pra quê liberdade? Só tenho medos. Medos tantos quanto fossem possíveis de existir... acho que quero desexistir. Aqui, nua, na chuva.

domingo, 15 de novembro de 2009

Na Ilha

- "ah, quem não viu, vá ver/ a onda do mar crescer"

São matas de um verde intenso
que combina com o anil do mar
verde, azul, marrom
são as cores que a minha vista alcança,
são as cores que eu gosto de olhar.
Observo a brincadeira das ondas,
a espuma branca que se forma
são flocos de neve, de água e sal.
É um movimento leve,
que flui...
Fluem ondas dentro de mim -
vão e voltam
uma atrás da outra
como crianças correndo livres.
Ah, como eu gosto do mar!
e de sentir a água gelada
e o sal quente na pele
queimando ao sol que salga.
É no mar que me sinto eu...

Quero me perder pra sempre
no meu eu do mar dessa ilha.

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

O tédio

- "tão grande é meu silêncio/ que poderia escutar uma hóstia pousar sobre uma nuvem/ a floração de estrelas no abismo/ e o murmúrio de deus amando o mundo"

Meu tédio vem de estar sozinha,
de estar vazia
E é o vazio que me toma
todo o ar que já tive

Agora não tenho ar,
não tenho sol,
não tenho amor
Sim, tenho medo

Medo do tédio eterno,
de não poder fugir do eterno
nem desse dia nessa cidade
(hoje eternamente de puro tédio,
puto tédio)

A cidade continua cheia,
repleta de gente vazia,
de gente cheia de tédio
sem ar, sem sol
e sem amor -
a cidade dos cheios de medo

Mas eu não gosto de desertos
e então,
enquanto observo a cidade
e percebo seu vazio,
seu tédio se torna acolhedor

É quando seguro um lápis
e esse caderno
E faço rimas
com palavras que não rimam

Só fujo do tédio quando encontro as palavras

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Sobre o (fim do) amor.

- woke up this morning/ singing an old beatles song/ we're not that strong my lord/ you know we ain't that strong/ (...)/ e se não tivesse chorar?/ e se não tivesse o amor?

Um disco voador me leva pra lua
até poder sentir o hálito quente do dragão de Jorge
e ver a chuva de longe,
suas gotas são de água e sal -
gotas daquela manhã branca,
de quando suas unhas se desferraram da minha pele,
depois que a transa acabou.
E se a chuva que hoje cai
são as lágrimas contidas dos meu olhos,
a que se destina toda essa água,
se você seria a razão dela existir?
Mas meus olhos agora só ardem,
não choram.
E se avermelham de ódio
ou de ópio
quando lhe olham.
Tendo atrás de mim o céu cinza,
com um milhão de pequenos raios
a iluminar a noite escura,
quero lhe perder pra sempre.

Saio morrendo de medo
dessa vontade de voltar.

terça-feira, 22 de setembro de 2009

A cor negra dos dias

- "antigamente o céu ficava colorido de balões/ como estrelas a brilhar/ eram mensageiros de perdidas ilusões"

Minha alma é fumaça negra de cigarro
que se mistura no negro do céu da noite
e encontra sua alma azul
de olhos negros
e corpo branco
Ou talvez seriam olhos brancos
de um corpo negro
Quando nossos lábios
vermelhos se encontraram
se coloriu meu ser
em cores do amor
cores de arco-íris
Naquela noite inventamos as estrelas
que se desfizeram ao nascer do sol
e as cores durante o dia
já não são tão nítidas
ficaram no escuro da noite estrelada
E seus olhos brancos ou negros
deixaram em mim lágrimas negras
negras e espessas, gotas de petróleo
É o que me resta, chorá-las.

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

Pregando um sonho.

-"e o nosso amor se declara muito maior e não pára em nós"

A bem da verdade, devo dizer que cada dia que chega, trazendo consigo o mundo real e levando embora meus sonhos irreais, me tira mais um taco de sabedoria. Era mais sábia quando criança. Talvez até o fosse mais quando ainda era um feto enroscado dentro do útero de minha mãe. Pelo menos mais livre eu era. Mais serena e mais feliz. Hoje não sinto o mundo e, mais mal, penso muito sobre ele. Todos os dias me bombardeiam com informações, filosofias e impressões mentais sobre o mundo. Tudo o que quase sempre me é inútil, ou me faz ver que o inútil sou eu e somos todos nós. Sei que falta pouco para que eu exploda.
Mas meu cérebro não é eu, sou mais que ele. Tento e não consigo, porém, mostrar a mim mesma minha essência. E ela vai se esvaindo, esvaindo, e se perdendo no labirinto confuso e truncado dos meus pensamentos. Ela não encontra o caminho que leva ao ponto de encontro com o profundo da minha mente (aquela parte dela que já existia antes de se encontrar com as outras mentes do mundo), e eu fico assim, separada em dois, e esquecida da segunda metade de mim (minha alma).
Enquanto isso chove, e eu não sinto a água. Apenas observo de longe cada gota que cai, como se a chuva estivesse dentro de uma televisão muda, instigando a meus ouvidos que a ouçam, a minha pele que se molhe e a meu sangue que se resfrie. Então me vejo presa do lado de fora dessa televisão. Tento aumentar o volume, ou mudar de canal, o controle remoto não funciona. Tento entrar nessa tv pra ver se me lembro do que é sentir a chuva e a tela me impede. Por agora, ainda vejo essa chuva e ainda não poderei senti-la.
É por isso que hoje sou a fé e a esperança de que um dia esse mundo me deixe viver do abandono da razão e ser só sensação. E de que eu possa deixar no ontem e dentro de uma televisão apagada a angústia, a frieza e a pequeneza desse eu de hoje. Acredito em um eu melhor e em um cada um de nós melhor. Podem dizer que é utopia, ou o que quer que pensem ser, mas quando esse dia chegar, e surgir um mundo novo, nosso de verdade, baterá à porta de cada um que se recuse a ver e gritar a sua própria verdade um vento louco de justiça e solidariedade, e esses, então, também entenderão o que são. Surgirão outros, da mesma forma, novos elos de uma corrente de bondade.
Ela não será fraca.

domingo, 2 de agosto de 2009

A saga de umas viagens -

Desse julho que me encheu de alegrias.

1 – Penedo, sua paz, minha paz.

Stones, dança, espelho; cor, vermelho, lareira; madeira, pica-pau; leitura, Janis, mezanino, estrela, sono; corpo, frio, coração, quente; All Star, café, cigarro; Om tare tam soha; Baleiro, noite, dedo, roxo, frio, frio, frio, bom; baú, magia, tesouro, Jumanji; barulho, silêncio, gente, amigos; solidão, filosofia, papel, caneta, eu, liberdade; pedra, montanha, amores; morango, chocolate, broa, truta, fondue, cerveja, cozinha; Papai Noel, Finlândia, casaco, meia-calça; araucária, fogo; chuva, sol, vento, água; cor, verde; casa, riacho, palmeira, fungo; cachorro, Judith, Regresso; portão, cadeado, chave, procura; sapo; lama, bota, biquíni, cachoeira; meia, cobertor, cantinho, janela, vidro, mato; padaria, ônibus, vontade, voltar.

2 – Fazendinha, sua terra, minha terra.

Descobri cada pedacinho de chão donde vem meu café da manhã, meu almoço e meu jantar. Descobri que dessa terra vem minha energia. Descobri o tanto de energia que é usada para preparar a terra, cultivar e colher meu alimento. Descobri que aqui se ensina e aqui aprendi muito. Descobri coco amarelo, pimentão chapéu e planta-ovo. Descobri que peão sabe das coisas. Descobri meu pai professor. Descobri que laboratório é mais legal do que parece. Descobri um workaholic colombiano-paraguaio-brasileño. Descobri como é deliciosamente sujo enfiar a mão na terra procurando minhocas. Descobri a comida gostosa da Elma. Descobri fitopatologia. Descobri gente engraçada. Descobri que eu gosto mesmo é de gente engraçada. Descobri fungo, bactéria e experiência científica. Descobri minha boadrasta. Descobri semente, muda, planta. Descobri que cachorros se viciam em Biscrok. Descobri grandes meus ipês amarelos. Descobri a beleza de ver crescer uma semente sua. Descobri que quero ver vacas todo dia. E entendi que meu lugar é mesmo aqui.

3 – Friburgo, suas flores, minhas flores.

Meu jardim tem margaridas e violetas
bromélias, orquídeas e amores-perfeitos
Tem flores-de-maio
que nesse junho se abriram

Tem um cheiro que é só seu
e que é diferente quando a chuva cai
deixando suas gotas na minha terra
e nos meus jasmins cheirosos
e nas minhas rosas e nos meus lírios

Quando o sol chega
lhe seguem meus girassóis
e se fecham minhas damas-da-noite

Quero levar meu jardim pra onde vou
e transformar o cotidiano cinza do cimento
em colorido dos meus miosótis azuis

Mas só junto a você sinto
esse cheiro de flor do amor compartilhado.

terça-feira, 21 de julho de 2009

Em Paris, durante um sonho.



_Bonjour, mon cherry!
_Je nes comprand pas français!

E então, ele fala em um idioma que eu entendo. Sei que não é o português que aprendi forçosamente. Sei também que o som que sai da boca dele é em francês e não tem sentido para meus ouvidos, mas enquanto atravessa meus tímpanos, algum tipo de mecanismo (que jogo aí para que cientistas decifradores dos mistérios do corpo humano se ocupem em desvendar qual) transforma o som que produzem as cordas vocais dele no mesmo som que meu cérebro entende, mesmas seqüências de notas, mesmas melodias, mesmo ritmo cadenciado. Minha própria mente, como em automático, traduz o que ele fala. E nada disso me parece estranho. Sinto que sempre foi para ser assim. Eu de lá do mundo e outro ser de cá do mundo, mundos estranhos um para o outro, seres estranhos um para o outro e palavras que servem para aproximar nossos mundos e nós próprios, os seres do mundo. Na verdade, não me importa nada disso, o lugar, as palavras ou os sonhos; o que me importa é que nos conheçamos mais, nos entendamos mais.

E ele disse:
_Vamos dançar...
_Ao som de que?
_Da chuva que cai.
_Mas a chuva hoje não cai...
_Imagines que cai, então.
_Não sei inventar sons.
_Não precisas de inventar, eu mesmo invento.
_E eu, então, como faço?
_E tu só sintas o som que vai de mim pra ti.
_Isso não me parece que pode dar certo...
_Tentas. Não julgues o futuro.
_Não o julgo, apenas penso nele.
_Deixa que ele chegue e se mostre a ti.
_Se tu tanto insistes... parece que não tenho alternativas.
_De fato, não as têm.
_Então, tu me segures e me guias ao seu som da chuva.

Cerrei meus olhos e deixei que ele fizesse o que queria comigo. Senti-me leve no mesmo primeiro instante em que ele agarrou minha cintura e então entreguei-me completa àquela dança da chuva. E a sintonia aconteceu. Nossos mundos se encontraram e logo nossas bocas também se encontraram, elas também dançando ao som de nossa chuva. Essa música moveu o universo. Ainda dançando, ele me guiou para a cama e, sem parar de dançar, entregamos completos nossos corpos um ao outro. Foi um encontro verdadeiro, tórrido e puro. Foi divino e foi satânico. Foi intenso.

E eu disse:
_Acho que te amo.
_Não fale de amor, amores são comuns e os temos muitos.
_Penso seres tu um deles.
_Já eu penso que tu és mais que apenas mais um deles.
_O que sou para ti, então?
_Tudo.
_O que seria tudo?
_Meu mundo.
_Não sabemos nada um do outro.
_Não digas isso, não é a verdade.
_O que sabes sobre mim, sobre minha vida longe daqui?
_Sei que danças como ninguém.
_Tu que me guiaste.
_Sendo assim, sei que juntos dançamos como ninguém.
_Contas sobre ti... Que fazes, do que gostas, quem és?
_Prefiro não o fazer.
_Por que?
_Porque prefiro não destruir a magia desse encontro te contando coisas que são comuns para mim.
_Por que esse teu medo do comum?
_Tenho medo é de te transformar em algo comum.
_Vamos passear por Paris...
_Preferiria estar aqui nessa cama por mais tempo.
_Devo conhecer a cidade-luz.
_Entendo que o devas, e então te acompanho.

Saímos caminhando e dançando pelas ruas de Paris. Voyajamos pelas pontes, pelos museus, pelos vinhos, pelos monumentos, pelos cafés. De frente para a Torre, ele me parou e me deu um beijo que me fez perder o fôlego. Acordei. No fim das contas, era mesmo um sonho. Tentei voltar e já não pude mais. Dizem que nunca é tarde. Mas a gente não sabe. Sempre pode ser tarde. Saí dessa viagem sabendo nada e tudo sobre ele. E aquele último beijo sonâmbulo ficou guardado no meu baú de sonhos.

- Talvez até vá a Paris um dia e quando já olhar a cidade do alto, no avião, sinta o mesmo que senti no sonho, aquela falta de ar daquele beijo dançado.

sexta-feira, 10 de julho de 2009

Esses meus dias com partes de você.

- “essa é a puta da vida, sempre se nos acaba”.

Entre baladas bregas de funk melody, alguns poemas cantados de Chico e o toque do coco de Dona Selma, vou deixando passarem esses meus dias em que você não está. Ando pelas ruas do Centro, leio um livro do Saramago, observo a brasa queimando o papel desse cigarro só pra teimar com o tempo que, por esses dias, anda em ritmo lento. Tentando lhe esquecer só por noventa minutos desse meu domingo branco, assisto futebol, grito com jogadores, técnicos, presidentes, torcidas, odeio mais o Flamengo, amo mais o Botafogo. Mas sempre me lembro do Vasco, porque me lembro de você. Quero me distrair no bonde, numa sala de cinema, num brownie da Juju, mas as lembranças de quando você estava aqui vêm e entram esbaforidas na minha mente, no meu corpo. Vejo você em cada canto dessa cidade, em cada arco da Lapa, dentro de cada bondinho do Pão de Açúcar que passa se equilibrando na minha janela, em cada gota salgada desse mar do Posto 9. Sinto o seu gosto no café da Moviola, lembro que só você me acompanhava no café da madrugada. Não perdi esse hábito, mas toda vez que boto o pó escuro na água quente, sinto mais a sua falta e meu coração se esfarela, vira também pó escuro. Não durmo. Sobra espaço na cama e falta nosso amor. Falta a sua mão enlaçando meu coração. Adorava as suas mãos, você bem sabe o porquê. Outro dia vi seu livro na vitrine da Travessa. O título “Amores em vermelho” se destacou no meio daqueles tantos outros que tão pouco me importavam. Nessa hora chorei, chorei porque doía ver seu nome ali na capa, você inteiro tão inalcançável pras minhas mãos e aquela parte de você ali bem na minha frente, separada apenas por um vidro transparente. Chorei porque era só um livro, só algumas idéias suas imortalizadas em papel. Comprei o livro, só pra alimentar essa dor. Pra me lembrar das suas palavras. Acho graça quando me lembro dos palavrões que você inventava. E sinto saudade dos seus silêncios, das palavras que ficavam presas na sua glote, mas que um olhar expressava. Sinto saudade daqueles seus olhos mel-verde-acinzentados, nunca pude definir-lhes bem a cor das íris. Seus olhos ficaram guardadas nas retinas do meu peito. Veio um calor no coração agora porque lembrei de como me agradava lhe mordiscar os peitos, as cócegas causavam aqueles seus ataques de riso que duravam longos e lindos minutos. Ah, como a sua risada era gostosa de ouvir... Cada parte de você virou agora uma parte de mim. Me espere onde estiver, céu, inferno ou o que for. Um dia eu chego pra lhe devolver suas partes e te ter completo.

terça-feira, 7 de julho de 2009

Num tapete com Teté.

Esse cacuriá que embala a alma: “Tu de lá e eu de cá com um riacho no meio/ Tu de lá dá um suspiro e eu daqui, suspiro e meio”.




Ligo a caixa de rádio
E, pensando estar sentada, tô em pé
Bambando aê
Caixa, pára não!
Toca, minha caixa, lá em Holanda
Deixa o cacuriá embalar Amsterdã,
Paris, Londres, Beijing
Todo cantinho do mundo
Deixa meu tapete voador levar seu som
As ondas irradiarão
A alegria da Dona
Deixa a gente morena, branca, preta, rosa, azul
Dançar cacuriá
Deixa escocês rodar a saia
Deixa o cacuriá ficar na Bahia
Que lá até siri vai bambar

Senti saudade de ti
Quando a Dona me lembrou da ribeira
Nós dois namorando deitados
Na folha da juçareira
Teu nome, Zé de Sibá
Me chamava teu tambor
E tocava em mim teu cacuriá
Quando me mandei pra Holanda
Deixei meu ouro em pó no Maranhão.

p.s.: Tudo sem você é lugar-comum. Mas pra quê sonhar em voltar?