sexta-feira, 10 de julho de 2009

Esses meus dias com partes de você.

- “essa é a puta da vida, sempre se nos acaba”.

Entre baladas bregas de funk melody, alguns poemas cantados de Chico e o toque do coco de Dona Selma, vou deixando passarem esses meus dias em que você não está. Ando pelas ruas do Centro, leio um livro do Saramago, observo a brasa queimando o papel desse cigarro só pra teimar com o tempo que, por esses dias, anda em ritmo lento. Tentando lhe esquecer só por noventa minutos desse meu domingo branco, assisto futebol, grito com jogadores, técnicos, presidentes, torcidas, odeio mais o Flamengo, amo mais o Botafogo. Mas sempre me lembro do Vasco, porque me lembro de você. Quero me distrair no bonde, numa sala de cinema, num brownie da Juju, mas as lembranças de quando você estava aqui vêm e entram esbaforidas na minha mente, no meu corpo. Vejo você em cada canto dessa cidade, em cada arco da Lapa, dentro de cada bondinho do Pão de Açúcar que passa se equilibrando na minha janela, em cada gota salgada desse mar do Posto 9. Sinto o seu gosto no café da Moviola, lembro que só você me acompanhava no café da madrugada. Não perdi esse hábito, mas toda vez que boto o pó escuro na água quente, sinto mais a sua falta e meu coração se esfarela, vira também pó escuro. Não durmo. Sobra espaço na cama e falta nosso amor. Falta a sua mão enlaçando meu coração. Adorava as suas mãos, você bem sabe o porquê. Outro dia vi seu livro na vitrine da Travessa. O título “Amores em vermelho” se destacou no meio daqueles tantos outros que tão pouco me importavam. Nessa hora chorei, chorei porque doía ver seu nome ali na capa, você inteiro tão inalcançável pras minhas mãos e aquela parte de você ali bem na minha frente, separada apenas por um vidro transparente. Chorei porque era só um livro, só algumas idéias suas imortalizadas em papel. Comprei o livro, só pra alimentar essa dor. Pra me lembrar das suas palavras. Acho graça quando me lembro dos palavrões que você inventava. E sinto saudade dos seus silêncios, das palavras que ficavam presas na sua glote, mas que um olhar expressava. Sinto saudade daqueles seus olhos mel-verde-acinzentados, nunca pude definir-lhes bem a cor das íris. Seus olhos ficaram guardadas nas retinas do meu peito. Veio um calor no coração agora porque lembrei de como me agradava lhe mordiscar os peitos, as cócegas causavam aqueles seus ataques de riso que duravam longos e lindos minutos. Ah, como a sua risada era gostosa de ouvir... Cada parte de você virou agora uma parte de mim. Me espere onde estiver, céu, inferno ou o que for. Um dia eu chego pra lhe devolver suas partes e te ter completo.

2 comentários:

  1. observo a brasa queimando o papel desse cigarro

    tão Clarice...

    só pra tornar coletiva a observação que era só nossa... :)

    ResponderExcluir
  2. esse tipo de texto melancólico e saudoso, no limiar do piégas (não que isso seja ruim!) é altamente nostálgico para mim... deve ser por isso que conseguiu tocar fundo no meu coração, que a primeira vista parece ser bem ignorante, mas na verdade é bem sensível. deve ser pq eu me faço bastante de durão (se bem que as vezes é necessário, mas ai sao outros 500).
    talvez um dia desses eu te mostre onde está a nostalgia, ai quem sabe não seja você, que tem o seu coração que a primeira vista parece ser sensível, tocado como eu tive lendo esse texto.
    bjinhos, ehg

    ResponderExcluir