terça-feira, 21 de julho de 2009

Em Paris, durante um sonho.



_Bonjour, mon cherry!
_Je nes comprand pas français!

E então, ele fala em um idioma que eu entendo. Sei que não é o português que aprendi forçosamente. Sei também que o som que sai da boca dele é em francês e não tem sentido para meus ouvidos, mas enquanto atravessa meus tímpanos, algum tipo de mecanismo (que jogo aí para que cientistas decifradores dos mistérios do corpo humano se ocupem em desvendar qual) transforma o som que produzem as cordas vocais dele no mesmo som que meu cérebro entende, mesmas seqüências de notas, mesmas melodias, mesmo ritmo cadenciado. Minha própria mente, como em automático, traduz o que ele fala. E nada disso me parece estranho. Sinto que sempre foi para ser assim. Eu de lá do mundo e outro ser de cá do mundo, mundos estranhos um para o outro, seres estranhos um para o outro e palavras que servem para aproximar nossos mundos e nós próprios, os seres do mundo. Na verdade, não me importa nada disso, o lugar, as palavras ou os sonhos; o que me importa é que nos conheçamos mais, nos entendamos mais.

E ele disse:
_Vamos dançar...
_Ao som de que?
_Da chuva que cai.
_Mas a chuva hoje não cai...
_Imagines que cai, então.
_Não sei inventar sons.
_Não precisas de inventar, eu mesmo invento.
_E eu, então, como faço?
_E tu só sintas o som que vai de mim pra ti.
_Isso não me parece que pode dar certo...
_Tentas. Não julgues o futuro.
_Não o julgo, apenas penso nele.
_Deixa que ele chegue e se mostre a ti.
_Se tu tanto insistes... parece que não tenho alternativas.
_De fato, não as têm.
_Então, tu me segures e me guias ao seu som da chuva.

Cerrei meus olhos e deixei que ele fizesse o que queria comigo. Senti-me leve no mesmo primeiro instante em que ele agarrou minha cintura e então entreguei-me completa àquela dança da chuva. E a sintonia aconteceu. Nossos mundos se encontraram e logo nossas bocas também se encontraram, elas também dançando ao som de nossa chuva. Essa música moveu o universo. Ainda dançando, ele me guiou para a cama e, sem parar de dançar, entregamos completos nossos corpos um ao outro. Foi um encontro verdadeiro, tórrido e puro. Foi divino e foi satânico. Foi intenso.

E eu disse:
_Acho que te amo.
_Não fale de amor, amores são comuns e os temos muitos.
_Penso seres tu um deles.
_Já eu penso que tu és mais que apenas mais um deles.
_O que sou para ti, então?
_Tudo.
_O que seria tudo?
_Meu mundo.
_Não sabemos nada um do outro.
_Não digas isso, não é a verdade.
_O que sabes sobre mim, sobre minha vida longe daqui?
_Sei que danças como ninguém.
_Tu que me guiaste.
_Sendo assim, sei que juntos dançamos como ninguém.
_Contas sobre ti... Que fazes, do que gostas, quem és?
_Prefiro não o fazer.
_Por que?
_Porque prefiro não destruir a magia desse encontro te contando coisas que são comuns para mim.
_Por que esse teu medo do comum?
_Tenho medo é de te transformar em algo comum.
_Vamos passear por Paris...
_Preferiria estar aqui nessa cama por mais tempo.
_Devo conhecer a cidade-luz.
_Entendo que o devas, e então te acompanho.

Saímos caminhando e dançando pelas ruas de Paris. Voyajamos pelas pontes, pelos museus, pelos vinhos, pelos monumentos, pelos cafés. De frente para a Torre, ele me parou e me deu um beijo que me fez perder o fôlego. Acordei. No fim das contas, era mesmo um sonho. Tentei voltar e já não pude mais. Dizem que nunca é tarde. Mas a gente não sabe. Sempre pode ser tarde. Saí dessa viagem sabendo nada e tudo sobre ele. E aquele último beijo sonâmbulo ficou guardado no meu baú de sonhos.

- Talvez até vá a Paris um dia e quando já olhar a cidade do alto, no avião, sinta o mesmo que senti no sonho, aquela falta de ar daquele beijo dançado.

sexta-feira, 10 de julho de 2009

Esses meus dias com partes de você.

- “essa é a puta da vida, sempre se nos acaba”.

Entre baladas bregas de funk melody, alguns poemas cantados de Chico e o toque do coco de Dona Selma, vou deixando passarem esses meus dias em que você não está. Ando pelas ruas do Centro, leio um livro do Saramago, observo a brasa queimando o papel desse cigarro só pra teimar com o tempo que, por esses dias, anda em ritmo lento. Tentando lhe esquecer só por noventa minutos desse meu domingo branco, assisto futebol, grito com jogadores, técnicos, presidentes, torcidas, odeio mais o Flamengo, amo mais o Botafogo. Mas sempre me lembro do Vasco, porque me lembro de você. Quero me distrair no bonde, numa sala de cinema, num brownie da Juju, mas as lembranças de quando você estava aqui vêm e entram esbaforidas na minha mente, no meu corpo. Vejo você em cada canto dessa cidade, em cada arco da Lapa, dentro de cada bondinho do Pão de Açúcar que passa se equilibrando na minha janela, em cada gota salgada desse mar do Posto 9. Sinto o seu gosto no café da Moviola, lembro que só você me acompanhava no café da madrugada. Não perdi esse hábito, mas toda vez que boto o pó escuro na água quente, sinto mais a sua falta e meu coração se esfarela, vira também pó escuro. Não durmo. Sobra espaço na cama e falta nosso amor. Falta a sua mão enlaçando meu coração. Adorava as suas mãos, você bem sabe o porquê. Outro dia vi seu livro na vitrine da Travessa. O título “Amores em vermelho” se destacou no meio daqueles tantos outros que tão pouco me importavam. Nessa hora chorei, chorei porque doía ver seu nome ali na capa, você inteiro tão inalcançável pras minhas mãos e aquela parte de você ali bem na minha frente, separada apenas por um vidro transparente. Chorei porque era só um livro, só algumas idéias suas imortalizadas em papel. Comprei o livro, só pra alimentar essa dor. Pra me lembrar das suas palavras. Acho graça quando me lembro dos palavrões que você inventava. E sinto saudade dos seus silêncios, das palavras que ficavam presas na sua glote, mas que um olhar expressava. Sinto saudade daqueles seus olhos mel-verde-acinzentados, nunca pude definir-lhes bem a cor das íris. Seus olhos ficaram guardadas nas retinas do meu peito. Veio um calor no coração agora porque lembrei de como me agradava lhe mordiscar os peitos, as cócegas causavam aqueles seus ataques de riso que duravam longos e lindos minutos. Ah, como a sua risada era gostosa de ouvir... Cada parte de você virou agora uma parte de mim. Me espere onde estiver, céu, inferno ou o que for. Um dia eu chego pra lhe devolver suas partes e te ter completo.

terça-feira, 7 de julho de 2009

Num tapete com Teté.

Esse cacuriá que embala a alma: “Tu de lá e eu de cá com um riacho no meio/ Tu de lá dá um suspiro e eu daqui, suspiro e meio”.




Ligo a caixa de rádio
E, pensando estar sentada, tô em pé
Bambando aê
Caixa, pára não!
Toca, minha caixa, lá em Holanda
Deixa o cacuriá embalar Amsterdã,
Paris, Londres, Beijing
Todo cantinho do mundo
Deixa meu tapete voador levar seu som
As ondas irradiarão
A alegria da Dona
Deixa a gente morena, branca, preta, rosa, azul
Dançar cacuriá
Deixa escocês rodar a saia
Deixa o cacuriá ficar na Bahia
Que lá até siri vai bambar

Senti saudade de ti
Quando a Dona me lembrou da ribeira
Nós dois namorando deitados
Na folha da juçareira
Teu nome, Zé de Sibá
Me chamava teu tambor
E tocava em mim teu cacuriá
Quando me mandei pra Holanda
Deixei meu ouro em pó no Maranhão.

p.s.: Tudo sem você é lugar-comum. Mas pra quê sonhar em voltar?